GUERRA DE TRÓIA

Mitos e Lendas: Aquiles e a Guerra de Tróia
Um dia, Hécuba, a esposa do rei de Tróia, teve um sonho pavoroso; ela, que estava grávida e em breve daria à luz, acordou de repente no meio da noite. Logo contou a seu marido Príamo o pesadelo: sonhara que o filho esperado finalmente parecia querer sair de seu ventre, mas, ao invés de uma criança, paria uma tocha. O mais inquietante era que o fogo acabava por se espalhar pela cidade inteira, consumindo tudo. O rei tentou em vão acalmá-la e minimizar aqueles terríveis presságios; por fim, para não restar dúvidas, dirigiu-se a um de seus filhos, que sabia como ninguém a arte de interpretar os sonhos. A resposta que os pais receberam foi uma horrível notícia e um conselho tétrico:  
— Vai nascer uma criança que causará a ruína de Tróia! Matem-na assim que nascer!  

Pode-se imaginar como o prognóstico2 destruiu a tranquilidade de Príamo e de Hécuba. A criança finalmente nasceu, Páris, um belo menino, robusto e de traços encantadores. Que cegueira a dos homens: contando de acordo com as luas, segundo um velho costume, levara dez meses o nascimento de Páris, assim como dez anos levaria o cerco de Tróia, terminando com o espantoso parto de guerreiros de um cavalo de madeira!  

Mas Hécuba, mãe, não aceitava a idéia de ver morto aquele filho e conseguiu fazer com que o menino fosse abandonado no Ida, uma cadeia de montanhas e bosques onde certamente ele não poderia sobreviver. Assim, Páris certamente morreria, para salvação de toda uma cidade, mas de uma maneira menos chocante para os pais.  

De repente, porém, um acaso muda o curso dos acontecimentos. Naquele mundo em que os homens sentiam sempre os deuses se manifestando e participando dos acontecimentos cotidianos, era difícil não ver aí mãos divinas, precipitando a ação humana para cumprir um plano arquitetado nas alturas. Pastores encontraram a criança desprotegida e destinada à morte e a recolheram e criaram como se fosse o filho de um deles. ProdígiO inacreditável: fora salva da fome graças a uma ursa, que foi vista a seu lado. amamentando-o... 

Com o passar do tempo, aquele menino cresceu robusto e se tornou um jovem de valor, que defendia os rebanhos dos pastores contra o ataque dos ladrões e das feras. Chamaram-no, então, Alexandre, isto é, em grego, “o protetor dos homens”. E um belo dia o jovem voltou para Tróia e revelou quem era, para surpresa de todo mundo, já que os súditos de Príamo estavam acostumados a participar anualmente dos jogos que o pai celebrava em memória do filho supostamente morto quando criança.  

Príamo e sua esposa o receberam muito bem e, esquecidos daquela profecia sinistra, cumularam Páris de tudo a que tinha direito o filho de um rei. Não podiam imaginar o que o Destino já havia tramado durante a permanência de Páris-Alexandre entre os pastores do Ida!  

Nas montanhas, um dia, Páris tivera de assumir o papel de juiz num dos julgamentos mais difíceis que se possa conceber. Tudo começou com Éris, a deusa Discórdia. Era um monstro horrível de ver, com serpentes ao invés de cabelos, os olhos em brasa e a roupa ensangüentada. Estava sempre pronta a lançar deuses contra deuses, homens contra homens, deuses contra homens, em suma, a infelicitar a vida de mortais e imortais com suas intrigas. Um dia, durante as bodas de Peleu e da ninfa Tétis, os futuros pais do grande Aquiles, a Discórdia, enraivecida por não ter sido convidada para a festa, lançou entre as deusas Hera, Palas Atena e Afrodite , uma maçã de ouro, com uma inscrição: “À mais bela”. 

Uma simples frase causou a maior confusão, especialmente entre as três belíssimas deusas, que disputavam acirradamente o título de a mais formosa. Zeus, desejando pôr fim à discussão, decidiu organizar uma espécie de concurso de beleza entre as três rivais. Talvez para evitar ciumeiras e proteções entre os imortais, determinou que o juiz seria um ser humano, ninguém menos do que o também formoso pastor Alexandre-Páris! Mas, com um mortal falível e divindades dispostas a tudo para satisfazer a vaidade e não macular a reputação, aquela disputa não seria das mais imparciais... Cada uma das deusas prometeu algo ao juiz:  
— Você reinará sobre toda a rica Ásia, se me escolher, disse Hera, que era casada com o supremo rei do Olimpo , Zeus. 
— Dê-me seu voto e será o mais sábio dos homens e vencerá todas as batalhas de que participar, prometeu, majestosa, Palas Atena, a mais sábia e a mais guerreira dentre as deusas.  

Mas foi a dourada Afrodite, com seu sorriso cheio de encantos e seus olhos brilhantes, seu doce perfume e seus gestos delicados, que seduziu o pastor, tanto mais que prometeu algo equiparável9 à maravilha que ele tinha diante de seus olhos:  
— A mais bela das mortais, a grega Helena, mulher de Menelau, compartilhará do seu leito, disse a deusa do desejo amoroso, sempre doce e amarga ao mesmo tempo, como costuma ser o amor.  

Terminou com a vitória de Afrodite aquele julgamento, mas não a guerra das deusas nem as suas conseqüências — pelo contrário, ali Tróia começava a caminhar para a ruína última e definitiva. O pomo dourado da Discórdia arruinaria a cidade de Príamo e levaria a gregos e troianos muitas desgraças, lágrimas e dores sem conta. As deusas perdedoras, Hera e Palas Atena, ajudariam, na medida de suas forças, os inimigos dos troianos na longa guerra entre exércitos da Europa e da Ásia.  

Um dia Páris, acompanhado de um de seus irmãos, viajou para a cidade de Esparta, pátria de Menelau, com o objetivo de raptar-lhe a esposa, que deveria ser sua, segundo a promessa de Afrodite. Foi recebido com uma hospitalidade digna dos gregos, numa recepção que unia anfitrião e hóspede em fortes laços de direitos e deveres mútuos. O marido, que de nada desconfiava, teve, pouco depois, de viajar para a ilha de Creta e, acreditando no pacto de hospitalidade, deixou sua própria esposa encarregada de tratar bem os troianos.  

Helena, diante daquele jovem ainda mais belo por obra de Afrodite, apaixonou-se e, sabendo dos planos de Páris, longe de precisar ser levada à força, resolveu com ele fugir levando seus tesouros. Foi bem recebida pelo rei Príamo, que não podia imaginar que desgraça acolhia em seus muros junto com aquela mulher que a todos encantava. No futuro, também um cavalo de madeira seria recebido com alegria e dele nasceria um rastro de destruição e morte.  

Ao saber do que ocorrera, Menelau reclama de Tróia a esposa, em vão. Furioso e decidido a se vingar, conclama todos os seus aliados a marchar contra a cidade, sob o comando de seu irmão Agamêmnon.  

Naquele exército, iam heróis que o mundo jamais esqueceria: o jovem e impetuoso Aquiles, o arguto Odisseu, ou Ulisses, tão hábil na ação quanto nas palavras, e tantos outros. Tróia, também chamada Ílion, assistiria a dez anos de batalhas em que combateriam os mais notáveis dentre os gregos e os troianos, em duelos que tinham muitas vezes alguma participação divina. Poetas e artistas praticamente do mundo todo, e em quase todas as épocas, recordariam inúmeras vezes aquele conflito terrível entre Europa e Ásia, que até hoje atiça a nossa imaginação. 

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